Conceitos e Definições de Dança

por Daggi Dornelles*

 

Podemos abrir o dicionário e definir a dança: a palavra e a superficialidade do ato.

Isto é prático e breve. Mas, ao pensarmos em todos os significados, expressões e manifestações que a curta palavra abriga, já viajamos para o pólo oposto: a vida fica estreita se desejamos ser abrangentes. Então, para minimizar a impotência, os estudiosos se especializam, focalizam segmentos restritos, territórios, tendências, culturas, etc. Muitas vezes, será preciso limitar e focalizar um indivíduo, dependendo da profundidade da abordagem.

Há a dança que nos chega pela História, a dança que nos move pelo prazer, a que herdamos no cotidiano das culturas, a que aprendemos enquanto técnica e instrumento de profissionalização, e inúmeras outras. E há a arte da dança, esta também, dotada de inúmeras faces e renovada – antes e para além do conceito – pelo caráter de permeabilidade e inventividade de cada artista que dela se ocupa.

É no território do criativo que o conceito estanca, que a definição escorrega, e que o desprendimento e o impreciso assumem as rédeas para que o que sempre existiu ressurja em estado inusitado, independente das influências a que estamos sujeitos, seja pelo aprendizado, pelo fato puro e simples de estarmos no mundo em fragilidade corpórea, ou pelo encanto que nos arrebata com esta ou aquela tendência artística.

No instante preciso do fazer da arte, tudo o que aprendemos ou conceituamos parece recuar, deve recuar, como afirmava Bertold Brecht, um aliado incondicional da formação para o ofício do artista, e que defendia o “esquecimento” como condição essencial do instante da criação. Esquecemos, esvaziamo-nos, para dar chance ao que deseja, através de nós, “vir a ser”. Naturalmente, esta não é a única via, mas a única que renova a expressão artística, impulsionando novos conceitos e novas definições, matéria prima dos inúmeros estudos que, então, inventarão outros termos, outras definições, outras explicações para aquilo que já estava, mas que, igualmente, acabou de nascer, graças à entrega e à lúcida confusão que animam a arte em ato criativo. E não só a arte: dizia Einstein que a imaginação é mais importante do que o conhecimento. Sem ela, estagnaríamos, e o conhecimento seria entrave, ao invés de promover evolução.

Aqui, no território do fazer artístico, impera o esquecimento de conceitos e definições, como instrumento essencial de nossa renovação em imaginário e poesia.

O corpo do artista, em todos os estados de sua manifestação, é o rompimento das amarras conceituais, a liberdade de ouvir para além do estabelecido e, assim, perpetuar o criativo como constante desafio em movimento. Ele provoca a renovação do conceito, rebela-se ante o conceito cristalizado, promovendo, assim, a ampliação infinita das vias sensíveis e inovativas. A arte move moinhos, para muito além do gosto pelos cartões postais que os retratam.

 

Estética da Formatividade

A estética é algo que me assusta. Muitas vezes, penso que não a compreendo, talvez, pelo fato de vê-la com extrema constância amarrada a preferências pouco lúcidas e engessadas. Em cada pequena manifestação, existe já uma estética peculiar. Se falamos em uma estética da formatividade, precisamos antes falar em uma estética da amplitude e da generosidade, esta, já, inestética: a amplitude liberta-nos das preferências, desenvolve sentidos amplos para a observação de tudo o que não somos sem, no entanto, que nos tornemos acríticos; a generosidade fará com que nos afastemos da restrita órbita do eu, para buscarmos a doação ao outro que não somos, ou não imaginamos ser. A generosidade batiza o movimento como “linguagem”, ao torná-lo aceno para o mundo.

Talvez, possamos imaginar assim: a formatividade, encharcada de um misto de fazer e observar focalizados na amplitude; e o fazer da arte, embebido em uma generosidade ocupada em dar ao outro algum encanto, ainda que cruel, ainda que duro, mas um encanto – nada de contos de fada, mas o derramamento de sermos humanos, todos, e cada um em peculiaridade e, daí, rompermos as barreiras estéticas e individuais, para falarmos ao todo, muitas vezes, em língua indecifrável, mas impregnada de afetos, para além do individualismo cifrado que, em estéticas aprisionadas, sufoca a comunicação e o criativo.

Quanto à “Poética”, parece-me que uma coisa é a questão poética, aliada aos rebentos da poesia, e outra é a “poética da dança”, como tentativa de definirmos em receituário o que apenas se faz “in loco”, em estado vivo e singular e, muitas vezes, para fora dos limites esclarecidos e definidos. Ao buscarmos no dicionário, é comum que a poética mencione a métrica, e a poesia mencione a graça e o encanto. Isto pode servir de referência, talvez, para amenizarmos o infinito equívoco da linguagem falada ou escrita.

Se a abordagem é uma “poética do receituário”, não tenho motivos para acreditar que ela seja ampla ou efetiva, em arte. Não a vejo, não funciona, não se ensina, apenas se aprende, ou melhor, vive-se, e sem segurança de domínio ou reincidência. A arte é um risco imensurável e daí nasce a sua poética essencial, alimento dos recantos da poesia! Não significa, aqui, um desprezo às regras, ou à métrica/método: significa que eles devem ser, a um só tempo, respeitados como instrumento, e livremente desobedecidos como fim. O artista deveria reunir primorosamente a disciplina, o respeito e a rebeldia. Sua desobediência é tanto selvagem quanto gentil para com as regras do mundo. É o encontro daquilo que parece nunca estar junto; esta é a transgressão maior! Abrigar, no mesmo corpo, o que parece apartado por ordem natural e mostrar que tudo assim parece, simplesmente, porque nossas culturas e educações trabalham pela disseminação de uma natureza restrita, que pouco observa e aprende com a ampla e sábia natureza do universo que nos regula, e, diante da qual, somos ínfimos e nada sábios.

Èmile Michel Cioran, escritor, filósofo e crítico cultural romeno, que desenvolveu seu trabalho em Paris, uma vez, foi perguntado onde sustentava sua autoridade e precisão ao avaliar a qualidade poética de uma obra. Ele disse: Nenhuma teoria me serve, neste momento. É uma coisa misteriosa: a qualificação poética revela-se por prolongamentos; a obra vai para além de si mesma. Aí, nos prolongamentos, manifesta-se a poesia!

 

Dança e Linguagem 

Não creio, em hipótese alguma, que a dança seja sempre uma linguagem, assim como uma língua não é, necessariamente, uma linguagem.

A linguagem é um sistema de signos que serve como meio de comunicação. A língua pode ser um ato de isolamento dotada de não comunicabilidade, em estado de pura estruturação gramatical.

Aqui, acho que posso fazer um link com a “generosidade”, anteriormente citada. Creio que a generosidade, a permeabilidade que se estabelece ao estarmos no mundo em corpo sensível, a consciência de que somos parte de um todo em movimento, é o que faz da dança uma linguagem, um veículo de expressão comunicável. Enquanto a dança for apenas uma fala individual isolada do mundo, ela é língua de um corpo, de alguns, talvez, limitada por regras, espécies de gramáticas específicas e partidárias. Mas não existem “prolongamentos” de poesia ou comunicabilidade. Ela é inexistente como linguagem: é parca fala de um corpo, ou de um território isolado que não rompe as fronteiras para além de seus limites, com riscos extremos de manifestações bélicas, excludentes e racistas, pois que apóia-se no desconhecimento para além do si mesmo. Parece-me que a linguagem se processa no encontro com o outro, independente da espécie de dança que seja praticada. Na adolescência, adorava bailes: uma maravilha! A dança como linguagem, e as nossas vidas embaladas por encontros dançados. Hoje, observo atônita, um número enorme de pesquisas de linguagem em dança, completamente alheios à questão da comunicação; línguas isoladas, inventadas sob o signo do isolamento, da tirania intelectual e da vaidade. Acho que a investigação é um momento precioso, mas dividi-la é o momento sagrado. Se investigo para fazer do outro um excluído, então, estou fazendo um estudo de “língua privada e sem comunicabilidade”. A linguagem é território de compartilhamento, de troca, onde estamos nus ante o desafio sempre renovado e sem fim do entendimento, ainda que inexplicável, ainda que sem palavras, pois que elas falham feito adolescências inseguras, ante as rugas rejuvenescedoras da poesia.

Inverno de 2009

 

*Este posicionamento não exclui os conceitos e as análises que se processam sob a ótica dos observadores externos do fazer do artista; aqui, apenas manifesto a urgência da inclusão do artista neste cenário tão amplo que só existe se houver o movimento de arte em seu estado criativo e transgressor. Sem guerras, apenas em coexistência de diferenças de opção, trajetória e experiência vivida.

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